Astrologia e Psicologia Junguiana



A Astrologia, em sua abordagem terapêutica e psicológica, e mais especificamente na leitura de um mapa natal, é um instrumento que descreve com precisão e profundidade a estrutura e a dinâmica das diversas forças e dimensões que formam a psique humana.

As Psicologias do inconsciente, Psicanálise e Psicologia analítica (Junguiana), observaram a manifestação de diversas instâncias constitutivas dos seres humanos e descreveram, ao seu modo, os conteúdos por elas representados. Várias das dimensões do indivíduo humano descritas pelas psicologias do inconsciente, bem como conceitos por elas definidos, encontram correlatos diretos na simbologia astrológica.

Desde os conceitos básicos da psicanálise, presentes na representação dos três constituintes do aparelho psíquico: Id, Ego e Superego. Vemos a mesma descrição conceitual e funcional na Astrologia representada na dimensão do eu descrita, e na função desempenhada por, respectivamente, Marte, Sol e Saturno.

Na Psicologia analítica a complexidade na identificação e descrição de estruturas fundantes da psique humana aumenta significativamente. Nas citações de Jung encontramos uma estrutura psicológica muito mais complexa e também muito mais viva onde estas estruturas interagem, se complementam e muitas vezes conflitam entre si. Na descrição Junguiana encontramos estruturas tais como: Persona, Sombra, Anima e Animus. Aqui, novamente encontramos correlatos estruturais descritos pela Astrologia: o Ascendente, Plutão, a Lua em um mapa natal masculino e Saturno em um mapa natal feminino, respectivamente, representam o mesmo conteúdo psíquico simbolizados na Psicologia analítica.

 Não é surpreendente o fato de encontrarmos estruturas e descrições semelhantes de dimensões humanas tanto na Astrologia como na Psicologia uma vez que ambas são conhecimentos desenvolvidos por seres humanos e, portanto, possuem representações da subjetividade humana e são representadas por princípios arquetípicos do inconsciente coletivo, para usar uma terminologia junguiana.

O meu principal objetivo com este texto, no entanto, não é descrever as semelhanças entre Psicologia analítica e Astrologia. Quero salientar as diferenças de uso e forma de acesso que estes dois conhecimentos similares fazem com os conceitos que possuem em comum e as possibilidades de benefício a ambas e a potencialização do processo de autoconhecimento do ser humano que podemos ter com uma combinação mais objetiva e metodizada destes conhecimentos.
Nas psicologias com o foco no inconsciente, em seu processo terapêutico com a intervenção e condução do terapeuta, é esperado que o inconsciente vá aos poucos se manifestando e sendo comunicado ao consciente, o acesso a este e à sua tradução podem se dar por várias vias, mas temos um contato privilegiado através dos sonhos, onde os episódios oníricos estão repletos de símbolos representativos do inconsciente coletivo organizados e qualificados conforme o inconsciente individual.

De uma forma muito sintética, é possível dizer que durante o processo terapêutico analítico o principal objetivo é que fique cada vez mais claro para o indivíduo a qualidade com que estas diversas estruturas complexas (Id/Ego/Superego, Persona, Sombra, Anima/Animus) se manifestam e são representadas, na sua particularidade como indivíduo, e o modo como interagem mutuamente em um sistema interdependente que em sua totalidade constitui a psique deste indivíduo.

A Astrologia clínica ou terapêutica, por sua vez, é um instrumento que possibilita a descrição diretamente ao consciente, de um modo objetivo, a qualidade com que cada uma destas dimensões constitutivas do ser humano estão representadas em sua psique individual. Em outras palavras, a Astrologia psicológica inverte o vetor, é uma psicologia do consciente, um instrumento que através de uma linguagem objetiva procura comunicar diretamente ao consciente como se dá o jogo de forças que constituem subjetivamente um indivíduo.

Na Astrologia todo este universo simbólico das manifestações do inconsciente coletivo, representado tanto nas estruturas psicológicas individuais citadas antes quanto nas diversas mitologias presentes em variadas culturas ao longo da história da humanidade, ganham vida e qualidade (atributos, predicados) de manifestação. Na Astrologia, estes elementos mitológicos representantivos do inconsciente coletivo assumem a função de elementos de um alfabeto simbólico que, quando associado a outros elementos do mesmo alfabeto, sob regras lógicas que definem a relação destes componentes, se obtém uma frase simbólica com um sentido, uma proposição que quer dizer algo próximo à relação sujeito predicado em uma frase. Se diz de algo de algo; que isto (o que quer que seja “isto”) se manifesta com determinada qualidade.

Quando se diz que determinado planeta (uma dimensão do indivíduo, estrutura ou elemento mítico do inconsciente coletivo) está posicionado em um signo (qualidade arquetípica de manifestação), a informação fornecida por esta disposição é a que neste indivíduo particular a dimensão do eu representada pelo planeta se manifestará com uma qualidade dentro do espectro arquetípico representado pelo signo. Deste modo, temos uma informação precisa e objetiva que pode ser comunicada através de uma linguagem de códigos definidos (Mercúrio/Logos) diretamente ao consciente (Sol/Ego) para que este tenha o conhecimento da qualidade e do modo de interação das diversas forças que formam sua psique indicando potencialidades e conflitos resultantes desta interação. A consciência e o entendimento desta totalidade simbólica da qual somos compostos propicia o autoconhecimento e contribui muito para o que Jung chama o processo de individuação.

Uma consulta de leitura do mapa natal (ou seja, ter o mapa natal interpretado por um astrólogo profissional capacitado) não é em si necessariamente terapêutico, no entanto, é sem dúvida muito revelador. Não é terapêutico simplesmente porque o ser terapêutico implica necessariamente um processo. Ainda que usualmente forneçamos uma gravação com o áudio da consulta, não temos nenhuma garantia que o cliente ouvirá outras vezes com a devida atenção para gerar um processo. A Astrologia somente se torna terapêutica por si só quando é estudada e praticada, uma vez que, através do estudo e da prática freqüente repassamos reiteradas vezes pelo simbólico nela contido de modo que os símbolos representantes do inconsciente coletivo nos perpassam constantemente o que propicia um contato direto, por ser simbólico, com o nosso inconsciente pessoal.

A Astrologia pode contribuir muito com um processo terapêutico quando utilizado como instrumento de diagnóstico por parte do terapeuta, pode ser muito útil na condução de um processo terapêutico saber a qualidade com que se manifesta determinada estrutura na psique do cliente. Nas palavras de Jung:

Como psicólogo, eu estou principalmente interessado na luz particular que um horóscopo oferece em certas complicações no caráter. Em casos de dificuldade diagnóstica eu normalmente obtenho um horóscopo para ter um ponto de vista adicional de um ângulo completamente diferente. Eu tenho que dizer que, muito freqüentemente, tenho achado que os dados astrológicos elucidaram certos pontos que, caso contrário, eu não teria podido entender.          (de uma carta para Prof. B.V. Raman; 06/9/ 1947)

Por sua vez, a Astrologia e os astrólogos se beneficiam do contato e da troca com a Psicologia Analítica de vários modos, primeiramente ao aumentar a complexidade das possibilidades de interpretação de uma dada disposição astrológica, aprofundando o significado atribuído a cada símbolo astrológico com um correlato em estruturas descritas na psicologia analítica. Outra contribuição para a Astrologia é a noção da psique humana como um sistema no qual várias partes interagem organizados dentro de funções e disposições hierárquicas e que o resultado final ( a interpretação e interação do indivíduo com o meio) é o resultado da interação das várias estruturas constitutivas do sistema psique humana, junto com o conceito presente na noção de Self, representando ao mesmo tempo o centro e a totalidade.

Por fim, o que entendo ser a maior contribuição tanto no sentido de contribuir para com a Astrologia quanto como contribuição para o ser humano moderno, é a noção do processo de individuação, que é o equivalente a noção de realização ou iluminação presente em várias culturas, em especial as orientais e que sabiamente Jung conseguiu instaurar esta noção novamente entre nós ocidentais contemporâneos. Entre tantas outras contribuições, Jung, nas inspiradas e inspiradoras definições do processo de individuação, reapresentou ao ser humano moderno a necessidade de manifestar e realizar a si mesmo no mundo através do processo de autodescoberta como a principal motivação para uma vida manifestada.

Para Jung, o grande sentido da vida é a individuação: processo de profundo autoconhecimento onde tomamos a coragem de nos confrontar com velhos medos e o que desconhecemos de nós próprios. Individuar-se significa fazer o ego/Sol (o centro da consciência) tomar consciência da totalidade, expandir-se e ir ao encontro desse centro/totalidade ordenador (Self) e fundir-se a este sem deixar de ser o que é. Representa separar-se da massa, do turbilhão inconsciente e adquirir autonomia, tornar-se uma totalidade psicológica, una e centrada, sem divisões internas, autoconsciente: um in-divíduo. Este é o caminho para a personalidade total e a buscada realização pessoal. Para Jung, o futuro da humanidade dependerá diretamente da quantidade de pessoas que conseguirem se individuar.

Entendo que a união e contribuição mútua entre este inspirado e profundo conhecimento de descrição e contato com o inconsciente humano representado pela psicologia analítica e a Astrologia, este milenar instrumento de conhecimento humano, (que segundo o próprio Jung deve receber o total reconhecimento por parte “das” psicologias por representar o somatório do conhecimento psicológico da antiguidade), não é somente benéfica a ambas, é acima de tudo importante para o próprio ser humano: o principal beneficiado por ser o objetivo final de ambos os conhecimentos. Entendo esta união como mais uma contribuição para o processo de individuação.

Daniel Machado   

2 comentários:

  1. O texto é muito esclarecedor! ! ! Como meu primeiro contato foi com Astrologia e só depois passei para Psicologia, sempre liguei uma a outra. Era muito normal essa fusão.

    ResponderExcluir